☁ Ovar ◷ 14 de Outubro de 2026 • 22:43
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Pão-de-Ló de Ovar é o melhor bolo do mundo. Uma história com mais de dois séculos

O TasteAtlas voltou a colocar o Pão-de-Ló de Ovar no topo do ranking mundial de bolos. Uma distinção internacional para um doce cuja história documentada remonta a 1781 e que, muito antes de conquistar o mundo, já fazia parte da identidade, das…
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O TasteAtlas voltou a colocar o Pão-de-Ló de Ovar no topo do ranking mundial de bolos. Uma distinção internacional para um doce cuja história documentada remonta a 1781 e que, muito antes de conquistar o mundo, já fazia parte da identidade, das tradições e das mesas dos vareiros.

Ovar pode dizer que tem o melhor bolo do mundo.
O Pão-de-Ló de Ovar ocupa o primeiro lugar do mais recente ranking do TasteAtlas dedicado aos melhores bolos do mundo, com uma classificação de 4,4 pontos, à frente da sueca Kladdkaka e da Gazta Tarta, o conhecido cheesecake basco.
A lista foi atualizada a 15 de setembro de 2026 e voltou esta quinta-feira, 24 de setembro, a colocar o nome de Ovar em destaque depois da divulgação da classificação.
No ranking global das sobremesas elaborado pela plataforma gastronómica internacional, a especialidade vareira surge ainda entre as dez melhores do mundo, ocupando a 10.ª posição.
Mais do que uma classificação numa plataforma internacional, a distinção chama novamente a atenção para um produto que acompanha Ovar há pelo menos 245 anos.

Há Pão-de-Ló de Ovar, pelo menos, desde 1781
A origem exata do Pão-de-Ló de Ovar perdeu-se no tempo. É frequente associar-se o doce à tradição conventual portuguesa, mas aquilo que está efetivamente documentado leva-nos ao final do século XVIII.
A referência escrita mais antiga conhecida data de 1781.
A documentação histórica que integra o processo de reconhecimento europeu do produto refere um livro da Irmandade dos Passos, no qual é registada a oferta de Pão-de-Ló de Ovar aos sacerdotes que transportavam a estrutura que servia para levar as imagens durante a Procissão dos Passos.
Era, portanto, já nessa altura, um produto suficientemente identificado com Ovar para aparecer associado a uma das manifestações religiosas da comunidade.
Quase um século depois, em 1877, existem já referências à importância do pão-de-ló de Ovar na doçaria local e à reputação que começava a adquirir para além do concelho.
Aquilo que começou nas cozinhas e nas casas de famílias ovarenses atravessaria gerações e tornar-se-ia numa das imagens mais reconhecidas de Ovar.

O segredo está também no “pito”
O Pão-de-Ló de Ovar distingue-se imediatamente de muitos dos restantes pães-de-ló portugueses.
A receita é aparentemente simples: ovos, com particular predominância das gemas, açúcar e farinha.
Mas é na preparação, nas proporções, no modo de bater a massa e, sobretudo, na cozedura que está boa parte do segredo.
O próprio documento oficial da Indicação Geográfica Protegida descreve-o como uma massa leve, cremosa, macia e amarela — o chamado “ló” — envolvida por uma fina crosta castanho-dourada e ligeiramente húmida.
E no centro encontra-se uma das suas características mais distintivas: o interior húmido e cremoso tradicionalmente designado por “pito”.
Não é um pão-de-ló mal cozido.
É precisamente assim que deve ser.
A quantidade de “pito”, a consistência da massa e o equilíbrio entre a fina crosta exterior e o interior húmido fazem parte das características que permitem reconhecer um verdadeiro Pão-de-Ló de Ovar.
Também o papel que envolve o bolo não é apenas uma questão estética. Faz parte da forma tradicional de produção e da própria imagem com que o produto chegou aos nossos dias.

Quando a temperatura do forno se media com um Pai-Nosso
Antes dos termómetros, dos fornos elétricos e da produção moderna, fazer Pão-de-Ló de Ovar exigia conhecimento transmitido essencialmente através da experiência.
Há memórias e relatos associados à produção tradicional em que a temperatura dos fornos de lenha era avaliada recorrendo a uma tira de papel colocada no interior do forno.
O tempo era contado de uma forma muito particular: aproximadamente o necessário para rezar um Pai-Nosso.
A cor que o papel adquiria ajudava então a perceber se o forno estava preparado para receber o pão-de-ló de Ovar.
São métodos que pertencem hoje à memória de uma produção profundamente artesanal, feita durante décadas por famílias que foram passando receitas, gestos e segredos de geração em geração.
Existia igualmente o chamado “feitio de fabrico”. As famílias entregavam os ingredientes a quem dominava a confeção do pão-de-ló e pagavam pelo trabalho de o produzir.
Era uma economia doméstica em torno de um produto que, pouco a pouco, deixaria de pertencer apenas às épocas festivas para se transformar numa referência permanente da gastronomia vareira.

De Ovar para o país
Durante muito tempo, o Pão-de-Ló de Ovar esteve particularmente associado à Páscoa e às celebrações religiosas.
Mas o doce rapidamente ultrapassou os limites dessas festividades.
A mobilidade dos vareiros e as ligações comerciais da população de Ovar contribuíram também para levar o produto a outros pontos do país, nomeadamente a Lisboa.
O que durante gerações foi produzido essencialmente em ambiente familiar passou progressivamente para confeitarias e casas especializadas.
Hoje, dificilmente se fala de gastronomia de Ovar sem chegar ao Pão-de-Ló de Ovar.
É simultaneamente produto, tradição, memória familiar e um dos principais embaixadores gastronómicos do concelho.

Um nome protegido na Europa
Essa ligação a Ovar passou também a ter reconhecimento formal.
Em agosto de 2016, a Comissão Europeia registou oficialmente a denominação “Pão de Ló de Ovar” como Indicação Geográfica Protegida (IGP).
Não se trata apenas de colocar uma sigla junto do nome.
A certificação protege a denominação e estabelece características específicas relativas ao produto, à forma como é produzido e à sua ligação ao território.
A área geográfica associada à produção corresponde ao concelho de Ovar.
Isso significa também que nem todos os pães-de-ló húmidos vendidos em Portugal são, tecnicamente, Pão-de-Ló de Ovar IGP.
A certificação procura proteger precisamente aquilo que tornou o produto diferente: a receita, as características, o conhecimento acumulado e a sua origem geográfica.

Ovar no topo de um ranking mundial
Mais de dois séculos depois da primeira referência escrita conhecida, aquilo que era oferecido aos sacerdotes envolvidos na Procissão dos Passos é agora apresentado a milhões de pessoas em todo o mundo.
O TasteAtlas, plataforma internacional dedicada à gastronomia tradicional, coloca atualmente o Pão-de-Ló de Ovar no 1.º lugar entre os melhores bolos do mundo.
A classificação é baseada nas avaliações recolhidas pela plataforma e não corresponde a um prémio institucional ou a um concurso gastronómico. Ainda assim, o alcance internacional do TasteAtlas transformou estes rankings numa importante montra para produtos e cozinhas de diferentes países.
E desta vez, no topo da lista, está Ovar.
Talvez seja precisamente essa a parte mais curiosa desta história.
Mudaram os fornos, mudaram os métodos de produção, mudou a dimensão do mercado e o Pão-de-Ló viajou muito para além das fronteiras onde nasceu.
Mas no centro continua a estar aquilo que sempre esteve: ovos, açúcar, farinha, papel, conhecimento e aquele interior cremoso que os vareiros aprenderam há muito a chamar simplesmente de “pito”.

De uma tradição documentada desde 1781 ao primeiro lugar entre os melhores bolos do mundo, passaram quase dois séculos e meio. O nome, esse, continua o mesmo: Pão-de-Ló de Ovar.

Aproveitamos esta oportunidade para publicar no notícias de ovar todos os locais onde se pode adquirir pão-de-ló de Ovar.

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