☁ Ovar ◷ 14 de Outubro de 2026 • 22:43
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Cortegaça: uma vila entre o mar, a floresta, a indústria e milhares de pontos de croché

Elevada a vila a 25 de setembro de 1985, Cortegaça assinala 41 anos com uma identidade feita de mar, floresta, indústria, património e tradição. Nos últimos anos, o croché juntou-se aos símbolos da terra, com projetos de grande dimensão como a árvore de Natal de 25 metros e um coração gigante que reforçaram a projeção da freguesia muito para além do concelho de Ovar.
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Elevada a vila a 25 de setembro de 1985, Cortegaça assinala 41 anos com uma identidade feita de mar, floresta, indústria, património e tradição. Nos últimos anos, o croché juntou-se aos símbolos da terra, com projetos de grande dimensão como a árvore de Natal de 25 metros e um coração gigante que reforçaram a projeção da freguesia muito para além do concelho de Ovar.

Cortegaça assinala esta sexta-feira, 25 de setembro, o 41.º aniversário da sua elevação a vila. A data marca um dos momentos mais importantes da história administrativa da freguesia, mas conta apenas uma pequena parte de uma identidade construída ao longo de vários séculos.
Entre o Atlântico e a floresta, Cortegaça cresceu ligada à pesca, à agricultura, à cordoaria e, mais tarde, à indústria. Hoje, a vila preserva essa memória, ao mesmo tempo que encontra novas formas de se afirmar.
Uma delas nasceu de agulhas, fios e milhares de horas de trabalho comunitário.
Nos últimos anos, Cortegaça passou também a ser conhecida como uma verdadeira Vila do Croché.

Uma história muito anterior à elevação a vilaA história de Cortegaça é muito anterior a 1985.

As origens da povoação remontam aos séculos IX e X, num período associado ao repovoamento das Terras de Santa Maria. Ao longo dos séculos, Cortegaça teve diferentes enquadramentos administrativos e chegou mesmo a constituir concelho próprio.
Em 1834, foi instalada a Câmara Municipal de Cortegaça, que se manteve em funcionamento até 1835. Pouco depois, com a reorganização administrativa do território, a freguesia passou a integrar o concelho da Feira.
Em 1879, Cortegaça passou definitivamente para o concelho de Ovar.
Mais de um século depois, a freguesia voltaria a viver um momento decisivo. A importância histórica, económica, industrial e populacional da localidade sustentou a proposta de elevação a vila.
A decisão foi formalizada através da Lei n.º 52/85, de 25 de setembro.
É essa data que continua hoje associada à celebração da vila.

Entre o interior e o Atlântico

A geografia ajuda a explicar grande parte da identidade de Cortegaça.
A freguesia estende-se entre o interior e a costa atlântica e é atravessada pela Estrada Nacional 109 e pela Linha do Norte, dois eixos que tiveram um papel importante no seu crescimento urbano, industrial e económico.
A poente encontra-se a Praia de Cortegaça, cuja ligação à população é muito anterior ao turismo balnear.
Durante décadas, a pesca e a Arte Xávega fizeram parte da economia e do quotidiano das famílias locais.
Essa relação com o mar continua presente na memória da vila e também nas suas tradições religiosas, nomeadamente nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré.
Ao longo do tempo, a praia ganhou novas funções e novos públicos. Hoje, Cortegaça está também associada ao surf, ao bodyboard e a outras atividades ligadas ao mar, adquirindo o epíteto de Vila Surf.
A relação com o Atlântico transformou-se, mas nunca desapareceu.

O outro lado de Cortegaça é verde

Se o mar marca uma das extremidades da freguesia, a floresta é outro elemento central da paisagem.
Cortegaça possui uma extensa mancha florestal, onde se encontra o Parque Ambiental do Buçaquinho, um dos espaços naturais mais conhecidos do concelho de Ovar.
O parque reúne percursos, zonas de lazer, equipamentos de educação ambiental e uma biodiversidade que contrasta com a urbanização e a atividade industrial existentes a poucos minutos de distância.
O Buçaquinho tornou-se, ao longo dos anos, um dos principais cartões de visita da freguesia.
Esta relação entre floresta, praia e área urbana cria uma identidade territorial pouco comum.
Em poucos quilómetros, Cortegaça passa da linha férrea e da indústria para zonas florestais, espaços naturais e, finalmente, o Atlântico.

Uma terra marcada pela cordoaria

Há ainda uma atividade que ocupa um lugar especial na memória económica e social de Cortegaça: a cordoaria.
Durante décadas, o fabrico de cordas empregou muitas pessoas e esteve profundamente ligado à história da freguesia.
Homens e mulheres trabalhavam fibras e fios, produzindo cordas que tinham diferentes utilizações, incluindo atividades ligadas ao mar e à agricultura.
Mais tarde, algumas dessas atividades evoluíram para uma dimensão industrial.
Agricultura, pesca, tanoaria, tapeçaria, produção de alcatifas e cordoaria fazem parte de uma história económica que ajuda a perceber a Cortegaça de hoje.
Curiosamente, décadas depois, os fios voltariam a ganhar protagonismo.
Desta vez, através do croché.

Quando o croché ganhou outra dimensão

Nos últimos anos, Cortegaça encontrou uma nova forma de se projetar.
A atividade começou por mobilizar mulheres da freguesia em torno de projetos comunitários e rapidamente ganhou dimensões muito maiores.
Em 2024, a vila ergueu uma árvore de Natal feita em croché com cerca de 25 metros de altura.
A estrutura, instalada junto à Avenida Nossa Senhora da Nazaré, foi revestida por milhares de peças produzidas manualmente.
O projeto envolveu dezenas de voluntárias de diferentes gerações.
Uma das participantes que mais se destacou foi Angelina Galante, então com 99 anos, que produziu centenas de rosetas para a árvore.
A participação valeu-lhe uma homenagem especial, com a estrutura a ficar conhecida como Árvore D. Angelina.
Mais do que a dimensão física, a árvore tornou-se um símbolo da participação comunitária.
Crianças, adultos e idosos trabalharam para um objetivo comum, transformando uma técnica artesanal tradicional numa obra capaz de atrair atenção muito para além do concelho.

Depois da árvore, nasceu um coração gigante

O projeto da árvore não ficou isolado.
Em 2026, Cortegaça voltou a reunir agulhas e fios para um novo desafio: criar um coração gigante em croché.
A estrutura atingiu cerca de 15 metros de altura e 10 metros de largura e foi instalada também na zona da Avenida Nossa Senhora da Nazaré.
Ao contrário da árvore de Natal, o coração foi produzido com fio sintético, com apoio de empresas ligadas ao tecido empresarial local.
O projeto voltou a envolver trabalho voluntário e vários meses de preparação.
A comissão responsável assumiu a designação Cortegaça Vila do Croché, reforçando uma identidade que começou a ganhar consistência própria.
Cortegaça conseguiu transformar uma atividade tradicional num elemento central da sua imagem contemporânea.

Uma vila reconhecida pelos azulejos

Muito antes do croché, havia já uma imagem que identificava facilmente Cortegaça.
A Igreja Matriz de Santa Marinha, com a sua fachada revestida de azulejos azuis e brancos, é um dos edifícios mais emblemáticos da freguesia.
A construção da atual igreja teve início em 1910.
As duas torres e a fachada revestida a azulejo conferem-lhe uma presença marcante no centro da vila.
O conjunto formado pela igreja e pelo antigo cemitério encontra-se classificado como Conjunto de Interesse Público e constitui um dos principais elementos patrimoniais de Cortegaça.
A este património juntam-se outros espaços religiosos e elementos associados às tradições populares da freguesia.

Tradições que continuam vivas

A vida coletiva de Cortegaça continua muito ligada às festas, às associações e às coletividades.
As Festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré são uma das celebrações mais importantes da freguesia e mantêm uma forte ligação à zona da praia e ao mar.
A Festa de São José é outro momento relevante no calendário local.
Nos últimos anos, iniciativas desportivas, culturais e comunitárias vieram juntar-se às tradições mais antigas.
O Cortegaça Vila Surf, as atividades promovidas pelas coletividades e os projetos ligados ao croché são alguns exemplos de uma freguesia que procura conjugar memória e novas formas de participação.

Uma vila que também mudou

A Cortegaça de 1985 não é a mesma de hoje.
A freguesia atravessou transformações demográficas, económicas e sociais profundas.
Os Censos mostram uma redução da população residente nas últimas décadas e um aumento do peso da população mais envelhecida.
Ao mesmo tempo, a atividade industrial manteve-se relevante e novas formas de associativismo, turismo, lazer e promoção territorial ganharam espaço.
Cortegaça continua, assim, dividida entre várias identidades que não se anulam.
É terra de indústria, mas também de floresta.
É terra de praia, mas também de património religioso.
É terra de memória operária, mas também de surf.
E é agora, cada vez mais, terra de croché.

41 anos depois

A celebração dos 41 anos da elevação a vila é, por isso, mais do que a recordação de um ato administrativo.
É também uma oportunidade para olhar para a evolução de uma freguesia que soube manter referências antigas e, ao mesmo tempo, criar novos símbolos.
A Igreja Matriz continua a dominar a paisagem.
A praia continua ligada à identidade dos cortegacenses.
A floresta mantém-se como um dos seus maiores patrimónios naturais.
A indústria continua a fazer parte da economia local.
E, nos últimos anos, milhares de pontos de croché deram a Cortegaça uma nova imagem.
Primeiro, através de uma árvore de Natal com 25 metros.
Depois, através de um coração gigante.
Duas obras feitas à mão que acabaram por contar uma história muito maior.
A história de uma comunidade capaz de transformar tradição em participação e participação em identidade.

Aos 41 anos enquanto vila, Cortegaça continua entre o mar e a floresta, entre a memória e a transformação, acrescentando novos pontos a uma história que começou muitos séculos antes de 1985.

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