Hélder Ventura: o homem que não deixa morrer os barcos da Ria

Há lugares onde os barcos velhos acabam esquecidos. No Cais do Puxadouro, em Válega, acontece precisamente o contrário. É ali que Hélder Ventura lhes devolve vida e, com eles, preserva uma parte da memória de Ovar.
Num antigo armazém de sal junto à Ria funciona o CENÁRIO – Centro Náutico da Ria de Ovar. Entre cascos de madeira, ferramentas, velas e peças que carregam décadas de histórias, Hélder Ventura dedica boa parte dos seus dias à recuperação de embarcações e à preservação de uma cultura náutica que corre o risco de desaparecer.
Natural de Válega e arquiteto de formação, a sua relação com a água começou muito antes do CENÁRIO. Cresceu a olhar para a Ria, viveu de perto a pesca no Furadouro e a náutica de recreio no Areinho e chegou a partir para os Estados Unidos movido pelo sonho da Oceanografia.
Mas foram os barcos de madeira que acabaram por lhe mudar o rumo.
A recuperação, com um amigo, de um velho Andorinha que ameaçava afundar-se levou-o a pesquisar técnicas, procurar conhecimento junto dos estaleiros tradicionais e descobrir um mundo que acabaria por se transformar numa missão.
Em 2004, essa paixão ganhou uma casa e um nome: CENÁRIO – Centro Náutico da Ria de Ovar.
Um cais que já foi porta de entrada e de saída de Válega
A localização dificilmente poderia ter maior significado.
Durante décadas, o Cais do Puxadouro foi um lugar de trabalho e movimento. Por ali passaram moliceiros, bateiras e mercantéis. Da freguesia saíam produtos agrícolas e pecuários, telha e caulino, entre outras mercadorias que seguiam pela Ria.
O movimento económico diminuiu, os tempos mudaram e muitas das embarcações desapareceram.
Mas a memória ficou.
É precisamente nesse cais que Hélder Ventura e os restantes elementos do CENÁRIO procuram impedir que desapareça também o conhecimento associado aos barcos.
A associação recupera e preserva embarcações de recreio em madeira, promove a cultura náutica e mantém viva uma arte cada vez mais rara: a carpintaria naval tradicional.
Do Puxadouro para outras latitudes
Mas há muito que o trabalho desenvolvido no Cais do Puxadouro deixou de se limitar às embarcações da Ria de Aveiro.
À oficina de Hélder Ventura chegam também barcos provenientes de outras geografias, alguns com histórias muito particulares. Entre as embarcações que passaram pelas suas mãos encontra-se, por exemplo, uma embarcação finlandesa com passado olímpico, que participou nos Jogos Olímpicos.
É uma curiosa inversão de rotas: um pequeno cais de Válega, outrora ligado sobretudo à circulação de mercadorias e embarcações tradicionais da Ria, recebe hoje barcos vindos de outras latitudes para que o conhecimento existente no Puxadouro lhes possa devolver vida.
Um lugar onde também se aprende com as mãos
O CENÁRIO tem ainda outra dimensão menos visível para quem passa pelo cais.
De tempos a tempos, o espaço recebe estagiários e alunos que ali têm oportunidade de contactar diretamente com a madeira, as ferramentas, os barcos e as técnicas tradicionais de construção e restauro.
Não ficam apenas a observar.
Metem, literalmente, as mãos na madeira.
O antigo armazém transforma-se assim também num lugar de formação, onde o conhecimento adquirido ao longo de anos é transmitido através da prática. Num ofício em que muito do saber não cabe num manual, aprender significa observar, experimentar, errar, corrigir e voltar a fazer.
Hélder Ventura levou igualmente esse conhecimento para fora do Puxadouro. Em 2024 foi um dos docentes convidados do primeiro curso de carpintaria naval da Ria de Aveiro, considerando a possibilidade de ensinar esta arte a concretização de um sonho pessoal.
Mais do que restaurar barcos
O trabalho desenvolvido no Puxadouro não se resume, por isso, a recuperar madeira degradada ou colocar novamente uma embarcação na água.
Cada barco recuperado transporta uma história.
Conta como se navegava, como se construía, como diferentes comunidades se relacionaram com o mar e com a Ria e como esse conhecimento conseguiu atravessar gerações e fronteiras.
E talvez seja essa a particularidade do CENÁRIO.
Não é apenas uma oficina. Não é apenas um clube náutico. E começa também a ser mais do que um lugar dedicado à preservação.
É uma pequena escola informal de património náutico, onde barcos antigos voltam à água e onde novas mãos aprendem técnicas antigas.
Porque preservar não é apenas guardar aquilo que chegou até nós.
É conseguir que alguém saiba continuar a fazê-lo.
E enquanto no velho armazém junto ao Cais do Puxadouro continuarem a ouvir-se ferramentas a trabalhar a madeira — seja pelas mãos de Hélder Ventura, de um aluno ou de um estagiário — haverá histórias da Ria e de barcos vindos de muito mais longe que ainda não chegaram ao fim.







