TI ALBERTO. MEMÓRIA VIVA DE OVAR
O Ti Alberto deixa-nos, mas não parte de verdade. Fica na memória de Ovar, na história da Confraria, nas tradições do mar e no coração de todos os que tiveram o privilégio de o conhecer.
Escrevo estas linhas a título pessoal, mas não posso deixar de o fazer também enquanto Arrais de Mar (Presidente da Direção) da Confraria Gastronómica do Concelho de Ovar, da qual o Ti Alberto era, e sempre será, um dos Fundadores. A sua partida deixa um vazio que não é só institucional. É humano, é cultural, e é, no fundo, profundamente vareiro.
O Ti Alberto confunde-se com a própria identidade de Ovar. Era homem do povo, homem do mar, homem de palavra, homem de honra. Homem de histórias e de sorriso fácil. Um daqueles homens com H grande, que não precisam de títulos para serem grandes, porque a grandeza vinha-lhe da vida, da experiência, da humildade, da forma como tratava toda a gente, com respeito, com verdade, e com aquele jeito tão seu de transformar qualquer conversa numa lição de vida.
Mas o Ti Alberto era mais do que isto. Era memória viva de um povo com fortes ligações ao mar. Guardava, como poucos ainda guardam, o saber antigo da arte xávega, essa tradição que moldou gerações e que, infelizmente, vai desaparecendo à medida que partem aqueles que a aprenderam, a ensinaram e a viveram. Ele era um dos seus grandes guardiões. Falava da arte xávega com orgulho, com paixão, e com a consciência de que trazia consigo um património que não se aprende em livros. Aprende-se no mar, no areal, no vento, na rede, no esforço e na alma de quem viveu o mar como ele viveu.
A importância que teve para Ovar não se mede só pelo que fez, mas por aquilo que representava. Era símbolo de autenticidade, de verdade, de raiz. Um homem que, só por existir, lembrava a todos quem somos e de onde viemos.
A Confraria perde um dos seus grandes. Ovar perde um dos seus símbolos. E eu perco um amigo.
Tive o gosto e a honra de o tratar por Ti Alberto, e recebia sempre, em troca, um sorriso rasgado, daqueles que iluminam. Estava sempre pronto para ajudar, sempre disponível para a Confraria e para a comunidade. Era o nosso tocador de búzio. Nenhum capítulo da Confraria começava ou terminava sem que ele tocasse o búzio e rezasse o bendito. Era o momento dele, era o nosso momento, era o momento da tradição que ele tão bem representava.
O Ti Alberto deixa-nos, mas não parte de verdade. Fica na memória de Ovar, na história da Confraria, nas tradições do mar e no coração de todos os que tiveram o privilégio de o conhecer.
E fica aqui um desejo, que é também um apelo, que o Município de Ovar saiba perpetuar o seu nome no tempo, atribuindo-o o seu nome a uma rua. Porque é de homens como o Ti Alberto que se faz a identidade de um povo.
Rui Pires da Silva | Cronista
ruipiresdasilva@sapo.pt


