Quando foi a última vez que viu um agente da PSP a patrulhar as ruas de Ovar a pé? Pense bem. Eu, sinceramente, não me lembro. E arrisco dizer que muitos de vocês também não.
Talvez ainda se recordem do agente Monteiro, presença habitual no centro da cidade. Regulava o trânsito, cumprimentava quem passava e transmitia aquela sensação de proximidade que faz diferença. Desde que se reformou, Ovar parece ter perdido essa presença policial diária. Não sou o único a dizê-lo, basta conversar com quem frequenta o centro.
Não se trata de uma crítica aos agentes da PSP. Eles fazem o melhor que podem com os recursos de que dispõem. A crítica dirige-se a quem define prioridades e toma decisões sobre o policiamento do território, porque é aí que, a meu ver, está a origem do problema.
Atualmente, não existe patrulhamento apeado em Ovar. Não há agentes a circular regularmente pelo centro, a acompanhar a atividade comercial, a regular o trânsito ou, simplesmente, a marcar presença numa cidade em movimento. E essa ausência tem consequências. Estacionamento desordenado, trânsito muitas vezes caótico, falta de civismo por parte de alguns condutores e a sensação crescente de que ninguém está a fiscalizar.
Afinal, quando é que a polícia aparece no centro? Na maioria das vezes, apenas depois de alguém ligar para a esquadra por causa de carros mal estacionados ou situações que impedem, por exemplo, os autocarros de estacionar no parque junto à biblioteca. Nesses casos aparece a polícia, são passadas multas e, pouco depois, tudo regressa ao mesmo. Entretanto, continuam a existir veículos estacionados sobre passadeiras, em curvas, nos passeios e noutros locais onde colocam em risco peões e automobilistas. Quem anda a pé pelas nossas ruas acabam, muitas vezes, por ser obrigado a circular pela estrada. E não deixa de ser frustrante ver viaturas policiais passarem por algumas destas situações e ignorarem. Querem outro exemplo? Ao final da tarde, junto ao Pingo Doce, a estrada torna-se um autêntico exercício de paciência e de desvios constantes dos carros estacionados nos passeis de um lado e do outro.
Também a própria esquadra enfrenta dificuldades. As instalações estão longe de oferecer boas condições, algo que já ninguém procura esconder. Nos últimos anos, a sucessão de comandantes tem sido constante. Entra um, sai outro, sem que exista continuidade. Não se trata de uma questão de distância ou de origem, até porque um dos últimos comandantes vinha de Vila Nova de Gaia. O problema parece ser estrutural. Falta estabilidade na liderança e, sem ela, torna-se difícil definir uma estratégia consistente. Sem estratégia, dificilmente existe um policiamento de proximidade eficaz.
É verdade que com uma importante decisão e apoio da Câmara Municipal, está finalmente a concluir-se o processo para a construção da nova esquadra da PSP. Trata-se de uma boa notícia e o executivo camarário merece reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nesse sentido. No entanto, importa não criar falsas expectativas. Um edifício novo, por si só, não resolve os problemas se continuar a faltar aquilo que mais faz diferença, agentes suficientes e um verdadeiro compromisso com a presença policial na cidade. Uma esquadra moderna continuará limitada se os efetivos permanecerem reduzidos.
Perante esta realidade, há quem questione se Ovar não deveria avançar para a criação de uma Polícia Municipal. A hipótese foi, aliás, discutida por vários candidatos nas últimas eleições. Naturalmente, a Polícia Municipal não substituiria a PSP, mas poderia complementar o seu trabalho, assegurando fiscalização de trânsito, apoio em eventos e uma presença mais próxima da população. Faz sentido para Ovar? Na minha opinião, sim. Não é uma questão partidária nem de defender este ou aquele candidato. É uma questão de olhar para a realidade e colocar os interesses da cidade em primeiro lugar. Além disso, segundo o saldo do próprio município, o principal obstáculo nem sequer será financeiro. Se a PSP não dispõe dos meios necessários para garantir uma presença constante, faz sentido que a autarquia procure soluções complementares que reforcem essa proximidade.
Nos últimos meses realizaram-se festas, eventos e iniciativas que trouxeram centenas e centenas de pessoas ao centro da cidade. Ainda assim, a presença policial praticamente não se fez notar, nem durante o dia nem à noite. A exceção continua a ser o Carnaval, altura em que existe um reforço musculado do policiamento. Mas Ovar vive durante todo o ano, não apenas nesse mês.
De tempos a tempos passa uma viatura, que, segundo se diz, pertence à esquadra de Espinho e faz uma ronda por Ovar. Antigamente era uma carrinha Mercedes azul tipo as da intervenção. Independentemente do modelo, continua a ser apenas isso, uma passagem ocasional. E uma passagem não substitui um policiamento regular e próximo da população.
Ovar não precisa de alarmismo. Precisa de organização, de fiscalização e de agentes presentes nas ruas, a pé e de carro atentos ao que acontece, próximos das pessoas e capazes de garantir o respeito pelo espaço público.
A segurança não se mede apenas pelo número de crimes registados. Mede-se também pela forma como a cidade funciona, pela organização do trânsito, pelo respeito pelas regras de convivência e pela confiança de quem vive e circula no espaço público. Hoje, em Ovar, essa presença é, simplesmente, insuficiente.
Está na altura de quem toma as decisões, não dos agentes que diariamente cumprem o seu dever, mas de quem define a política de segurança e distribui os recursos, olhar para Ovar com a atenção que a cidade merece. A nova esquadra representa um passo importante. O reforço de efetivos será outro. E ponderar seriamente a criação de uma Polícia Municipal poderá muito bem constituir o terceiro.
Rui Pires da Silva | Cronista
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