Cineteatro de Ovar
A Construção e o Objetivo
A 30 de Dezembro de 1944 é inaugurado o cineteatro de Ovar com a exibição do filme Sinfonia de estrelas.
Um ano antes foi constituída a empresa de melhoramentos de Ovar limitada que tinha como objeto “explorar o Cinema, Teatro e quaisquer espetáculos, festas e diversões públicas e outros negócios”.
Construído no espaço central da cidade, “sobressaia por entre o casario humilde que por ali existia”. A sua implantação junto à Igreja Matriz, paralela à Rua do Bom Reitor e no culminar de uma artéria importante na estruturação da cidade de Ovar, a Rua Gomes Freire, potenciou o desenvolvimento da envolvente próxima. Sendo talvez a mais notável, a abertura de uma larga nova rua, a Rua Ferreira de Castro, com passagem sobre o rio e sobre o vale. Fortaleceu ainda as ligações para Nascente, em direção à Estação de caminhos de ferro, que se iam qualificando e ganhando importância. O Cineteatro veio reforçar um dos principais espaços urbanos e coletivos de Ovar, consolidando esta nova área central da cidade.
Quanto à dimensão arquitetónica do Cineteatro, é relevante dizer que se enquadra nas tipologias dedicadas à arte do espetáculo, mais especificamente os cineteatros. Enquadra em si alguns elementos de caráter modernista, como “os dois volumes semicilíndricos da fachada, as fenestrações rasgadas horizontalmente no corpo redondo mais elevado, a série de óculos circulares” e outros de influência tradicionalista como “a entrada principal, de composição simétrica, com marcação por pilastras estilizadas, verticalizantes, alternando com janelões esguios sobre avarandado, num conjunto com um sentido geral monumentalizante”. Apesar destes elementos que expressam a nacionalidade e a tradição estarem mais associados a equipamentos de encomenda pública, encontravam-se também nos equipamentos de promoção privada, como é o caso do Cineteatro de Ovar.
Projetado com uma sala com a capacidade de mil duzentos e quarenta e seis lugares, segundo a Memória Descritiva e Justificativa do projeto, estaria preparado para atender principalmente às necessidades do público de cinema. Os lugares eram distribuídos pela plateia, com frisas na sua parte traseira e um grande balcão dividido em três partes, bancada numerada e bancada geral, sendo que o acesso a estas partes da sala era feito por zonas diferentes do edifício. As entradas para os lugares da plateia, primeiro balcão e frisas, eram feitas pelo vestíbulo principal, e a entrada para os lugares de bancada (a parte superior do balcão) realizava- -se pelo vestíbulo e escadaria à esquerda da fachada principal e teria bilheteira privativa.
Apesar de ser pensado especialmente para o cinema, incluía as valências necessárias ao funcionamento como teatro, entre elas, um conjunto de seis camarins distribuídos por dois pisos e a caixa de palco. A cave ficaria reservada para os serviços de apoio aos músicos, que contava com um pequeno compartimento para ser usado nos intervalos, instalações sanitárias e duas arrecadações.
A par com a Sala de Espetáculos, o Salão de Festas viria a ter uma grande importância na vida social dos habitantes de Ovar. O espaço era servido com um nicho para orquestra e estava preparado de forma a ser usado de modo independente da Sala de Espetáculos, ou como foyer do balcão.
O Cineteatro de Ovar contava ainda com bengaleiro, bares, um pequeno escritório e dois grupos de instalações
A decadência e o fim do cinema
A partir de 1990, o Cineteatro começou a transparecer a sua degradação.
O Cineteatro era uma sala enormíssima para aquele tempo, as cadeiras eram desconfortáveis, os equipamentos, sistema de projeção e ecrã estavam muito degradados e a sala era fria. Por todas estas razões, era revelada a vontade da construção de uma nova casa da cultura, capaz de acolher todo o tipo de espetáculos.
A Empresa ECO – empresa proprietária do Cineteatro que teve na sua origem a Empresa de Melhoramentos de Ovar – reconhecia a degradação do edifício e afirmava ter um projeto de restruturação, que nunca foi executado.
O Cineteatro esteve durante esta década na iminência de encerramento, mas foi em 2002, durante o espetáculo para a eleição dos Reis do Carnaval que o palco cedeu, ficando duas pessoas feridas. Depois deste incidente o Cineteatro abriu ocasionalmente para acolher eventos como o Ovarvideo, a eleição dos Reis do Carnaval, o Cantar dos Reis ou o Festival da Canção de Ovar.
Entre as principais razões para o abandono e consequente decadência do Cineteatro estavam a concorrência do cinema na televisão e dos clubes de vídeo e “a proliferação de salas mais pequenas em cidades próximas, o desconforto da sala, o atraso na exibição dos filmes e o próprio tipo de espectadores que nem sempre se comportava à altura das cenas exibidas”. O incidente referido, tornou a questão da segurança como a maior dificuldade e fez com que a Câmara Municipal de Ovar decidisse não recorrer mais ao Cineteatro para a realização de eventos.
Com a mudança do tipo de consumo de cinema, o (atual) centro comercial Vida inclui na sua construção em 2008. Integrado num espaço com mais 60 lojas e com a grande arena desportiva, foi fechando e abrindo regularmente, mostrando pouco consumo. Hoje o cinema é consumido em espaços que agregam diversas pequenas salas, integradas em grandes espaços comerciais.
O Consumo de cinema no concelho passa a depender, maioritariamente da organização do Shortcutz de ovar, exibição mensal de curtas metragens e esporadicamente de uma ou duas longas metragens, quer com Centro de Artes quer na escola de artes e ofícios. Sabe-se que as sessões estão quase sempre lotadas.
Os proprietários tentaram obter licença de construção de um imóvel com fins mais comerciais, e mais tarde colocou o edificado à venda. Sem sucesso.
Em agosto de 2016, A Câmara Municipal de Ovar avançou com a demolição de grande parte do Cineteatro, justificada pela queda de parte da cobertura, colocando em perigo os transeuntes, restando apenas a parte frontal do edifício, correspondente ao vestíbulo de entrada, ao Salão de Festas e à escadaria principal.
Em 2018, a Câmara Municipal de Ovar adquire oficialmente o Cineteatro, com o objetivo de desenvolver um projeto de requalificação, “enquadrado na estratégia de regeneração e requalificação urbana já em curso, no âmbito do PEDU – Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano”
Presente e Futuro
O Cineteatro tem, nos últimos anos, sido alvo de vários projetos de utilização e arquitetura, que nunca saíram do papel.
A disputa política autárquica colocou o assunto a debate.
Uma petição pública para evitar o seu desaparecimento obteve pouco mais que mil assinaturas.
Chegou uma petição à assembleia da república e a CCDR centro foi chamada a pronunciar-se.
Os partidos da oposição mantiveram reuniões de bastidores tentando obter uma unanime posição contra a vontade da camara de demolir o edifício.
Pouco antes do ato eleitoral de 2026, em Outubro, a Câmara Municipal de Ovar anuncia o lançamento de concurso para a construção de um projeto no local.
Por fim!
A Câmara Municipal de Ovar anunciou, a aprovação do projeto final base de arquitetura para a requalificação do Espaço Público – Entrada Principal do Parque Urbano de Ovar. Com a “Praça Cineteatro”, a autarquia diz pretender dotar a cidade de Ovar de uma nova centralidade, criando uma grande praça para espetáculos ao livre, permitindo um acesso digno ao Parque Urbano, facilitando a circulação pedonal e valorizando a fachada da Igreja de Ovar.
A Câmara Municipal de Ovar adianta que a proposta foi aprovada por unanimidade e garante que a história do antigo Cineteatro de Ovar será preservada, respeitando-se a memória do povo. Criando novos palcos, no caminho da modernidade, será também prestado um tributo à cultura e às artes, através da construção de um grande auditório – o maior do concelho -, a céu aberto, em harmonia com o meio ambiente, num local central e acessível a todos, onde o cinema, o teatro e a dança, entre outras artes, possam ser apresentados e vivenciados de forma abrangente e evolutiva, destaca a autarquia.
Esta reportagem foi realizada com recurso à tese de Mestrado da arquiteta Adriana Isabel Duarte Soares e ao material de campanha dos partidos referenciados
Movimento 2030
O principal ativista tem sido o Movimento 2030 e apresentou a sua proposta, salvaguardando o que resta do edifício, acrescentando serviços como o turismo, cobrindo as paredes exteriores com grades ecrãs. Não são conhecidos orçamentos desta proposta.
O M2030, criou uma petição online que obteve 1050 assinaturas. Apresentou a questão na Assembleia da república. Pediu a intervenção da CCDR Centro e apresentou queixa na União Europeia.
Apresentou-se a votos com este tema como bandeira e obteve 6,19% , quinto.
Agir! Pelo Desenvolvimento da nossa Terra
Mais recente, o movimento Agir pelo desenvolvimento da nossa terra, apresentou em plena campanha eleitoral uma proposta de utilização e arquitetura para o espaço. Também neste caso se desconhecem orçamentos.
O AGIR obteve 15,31% dos votos, ficando em terceiro lugar.
Mas acabou fazendo um acordo de governação com o PSD e tem uma vereadora no executivo.
Partido Socialista
O Partido Socialista de Ovar acompanhou este assunto na Assembleia da República através de deputados seus.
No processo de candidatura de Outubro, não apresentou nenhuma proposta. Mas a posição do vereador Fernando Almeida é conhecida como um apoiante da manutenção e aproveitamento do edifício devoluto.
Partido Chega
A posição conhecida do chega foi também de apoio à manutenção do Cineteatro em sede da Assembleia da República
CDU-PEV
A CDU não manifestou publicamente nenhuma conhecida posição
CDS-PP Ovar
O CDS-PP que não se apresentou a eleições, apoiando a lista independente AGIR, manifestou que este assunto é do foro exclusivo de quem venceu as eleições. É uma questão administrativa, não reconhecendo ao edifício características especiais.
BE Bloco de Esquerda
Bloco de esquerda elegeu a habitação como bandeira da sua campanha, mas não sabemos que se tenha manifestado em relação a este dossier
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