Cineteatro de Ovar: Preservar o Passado ou Qualificar o Futuro?
O debate sobre o antigo Cineteatro de Ovar tem sido, em grande parte, dominado pela emoção. No entanto, uma cidade não se constrói apenas com memória; exige decisões estratégicas, coerentes e viradas para o futuro.
É inegável que o Cineteatro teve o seu valor, marcando a estrutura urbana e social da cidade, ao criar uma nova centralidade e dinamizar a área envolvente.
Contudo, essa importância histórica não se traduz num valor arquitetónico excecional que justifique a sua preservação.
Pelo contrário, o seu estado atual revela degradação, perda de função e uma clara incapacidade de se adaptar às novas exigências culturais e urbanas.
Hoje, o que resta do edifício é mais um problema do que uma mais-valia para a cidade.
Há, porém, um fator crucial a considerar: a sua localização.
Do outro lado da rua, encontra-se a Igreja Matriz de Ovar, um dos símbolos culturais e religiosos mais importantes do concelho.
Este enquadramento pede mais do que uma conservação passiva; exige qualidade urbana, dignidade arquitetónica e uma visão integrada do espaço público.
Manter um edifício sem valor arquitetónico distintivo num ponto tão sensível da cidade é desperdiçar a oportunidade de valorizar uma das principais entradas do centro urbano e de enriquecer o diálogo com um dos seus marcos patrimoniais mais relevantes.
A demolição total abre precisamente essa possibilidade:
• Criar uma nova frente urbana que dignifique a Igreja Matriz;
• Rematar a empena existente junto à farmácia, atualmente desqualificada;
• Estruturar uma nova entrada para o Parque da Cidade, melhorando a sua acessibilidade e vivência;
• Desenvolver um projeto contemporâneo, coerente e de qualidade arquitetónica, capaz de responder às necessidades atuais.
É importante realçar que o anterior executivo municipal não só encomendou um projeto, como o negociou e obteve aprovação das entidades competentes. Ou seja, houve um percurso técnico estruturado, fundamentado e validado.
Embora eu próprio pudesse ter projetado de forma diferente, o que não se pode ignorar é que o executivo anterior foi a eleições, ganhou e, com isso, legitimou o projeto que havia encomendado e aprovado.
A discussão atual não pode ignorar esse projeto, nem ficar refém de posições meramente simbólicas ou politizadas.
Preservar por preservar não é uma estratégia; é a ausência dela.
O Cineteatro faz parte da história de Ovar. Mas o futuro da cidade exige mais do que nostalgia.
Exige visão, coragem e a capacidade de transformar um espaço problemático num verdadeiro ponto de qualificação urbana.
E essa oportunidade não pode ser adiada.
Paulo Coelho
Arquiteto