Todos os anos, quando chega o calor, voltamos a viver o mesmo medo dos incêndios florestais. Parece que o país inteiro fica em alerta, como se soubesse que, mais dia menos dia, tudo começa outra vez. Mas a verdade é que os incêndios não começam no verão. Começam muito antes, quando a prevenção devia ser levada a sério e, infelizmente, muitas vezes não é. Prevenir não é só limpar terrenos porque a lei manda. É ter cuidado, é estar atento e é perceber que cada gesto conta.
Sei que muitos vão achar uma ladainha, mas a verdade é que há coisas simples que evitam grandes tragédias. Não fazer queimadas em dias de risco, não usar máquinas que largam faíscas, não deixar lixo no mato, não atirar beatas pela janela do carro. São gestos pequenos, mas que fazem toda a diferença. Todos os anos vemos incêndios que podiam ter sido evitados com um pouco mais de atenção e cuidado. A prevenção não é complicada. O difícil é mudar hábitos.
Mas, com muita revolta, há ainda uma parte mais difícil de aceitar. Os incêndios que não começam por acidente. Há descuidos, sim, mas também há quem ateie fogos de propósito. Uns são doentes (ou fazem-se) e precisam de tratamento. Outros fazem-no por maldade pura, e chamar-lhes pessoas já é ser simpático. Não há desculpa possível para destruir floresta, casas e vidas. É crime, é egoísmo, é covardia. Não há desculpa. Esta é a parte mais revoltante de tudo isto.
Também é verdade que, por vezes, a comunicação falha. Não vale a pena fingir que não é assim, pois todos o sabem e os responsáveis admitem-no. O SIRESP já falhou no passado e tem sido, assumidamente pelos governos, motivo de falhas graves e preocupantes. Isso é um facto. Mas, como ato de esperança e de fé, resta-nos acreditar que este ano o sistema vai funcionar como deve ser. Que o SIRESP será parte importante da solução e não do problema. A comunicação é essencial para a segurança de todos e, quando falha, tudo fica mais difícil.
Mas, quando os alarmes a incêndio tocam, há quem vá prontamente para o terreno. São eles os nossos bombeiros, os soldados da paz. Sei que eles são verdadeiros heróis, mas a realidade é que os bombeiros são pessoas comuns, de carne e osso, com família e vida própria. São pais e mães, são filhos e esposas ou maridos, são quem deixa tudo para trás para ajudar e salvar o outro. O que fazem não é um ato de magia nem um impulso romântico. É responsabilidade, é compromisso. Quando vão, não sabem se vão estar fora uma hora, uma noite inteira ou até mesmo uma semana. E mesmo assim vão. Vão porque é o que têm de fazer. Vão porque sabem que, se não forem eles, ninguém vai.
Muitas vezes, quando o fogo chega perto das casas, as pessoas desesperadas perguntam onde estão os bombeiros. No desespero, o que é compreensível, dizem que estão abandonadas, que não anda ali nenhum carro, que ligam e que não mandam ninguém. Perguntam onde é que eles estão. A resposta é simples. Estão onde é possível estar. Quando há vários incêndios ao mesmo tempo, os meios não chegam para tudo. Esta é a verdade. É preciso definir prioridades no terreno, e é natural que isso nem sempre agrade a quem está em risco. Mas, infelizmente, os recursos são finitos.
Os incêndios são uma desgraça. Queimam florestas, casas, animais, memórias e vidas inteiras. Fazem vítimas e destroem tudo por onde passam. Deixam marcas que não desaparecem com a chuva. Mas também mostram o melhor de nós, como a coragem dos nossos bombeiros, a união das populações e a vontade de ajudar. E também mostram o pior, como a destruição e tudo o que ela implica e representa.
Se queremos mudar este ciclo, temos de começar antes das chamas. Temos de falar mais de prevenção e menos de hectares ardidos. Temos de valorizar quem arrisca a vida no terreno. Temos de ser mais responsáveis no que fazemos e no que dizemos. Temos mesmo de ser agentes de proteção civil.
Os incêndios não são inevitáveis. Mas, enquanto só acordarmos quando o país já está a arder, vamos continuar a repetir a mesma história. E quando o fogo chega, já é sempre tarde demais.
Termino esta minha opinião com três pedidos. Primeiro, que sejamos cuidadosos, que adotemos medidas de prevenção e que, ao menor sinal, liguemos logo para as autoridades. Segundo, que, mesmo compreendendo o desespero, não se culpe os bombeiros que dão tudo por nós, porque não há bombeiros à porta da casa de cada um. Terceiro e último, sei que será polémico e poderá até ser mal interpretado, mas espero que a comunicação social continue a informar, pois isso é essencial. O país precisa de saber o que está a acontecer. Mas o excesso de dramatização e a repetição constante de imagens podem criar ruído desnecessário. Não estou a dizer que a culpa é da imprensa. Não é. Apenas que, em momentos de grande tensão, a forma como se comunica, pode ajudar ou complicar. O importante é informar com responsabilidade, sem transformar cada incêndio num espetáculo.
Rui Pires da Silva | Cronista
ruipiresdasilva@sapo.pt

