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Cine-Teatro de Ovar | Por José Lopes

A decisão está tomada e no espaço do antigo Cine-Teatro vai surgir uma nova edificação. Há quem promova ainda o debate sobre o futuro que esta anunciado. O José Lopes aborda a questão de um ponto de vista mais factual e histório num excelente artigo de Opinião

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admin

Publicado em

29 Maio, 2026

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Cine-Teatro de Ovar: memórias enterradas nos seus escombros

As memórias de várias gerações de ovarenses que restavam da sua relação cultural e social com o Cine-Teatro de Ovar (imóvel de 1944), estão há muito enterradas nos seus escombros, dos quais, sobra uma fachada representativa de um património arquitetónico, que vários executivos camarários se limitaram a desvalorizar e abandonar ao longo do tempo, ainda que, criando ilusões, expetativas e promessas proteladas, sobre um futuro que deveria honrar o seu passado no campo do cinema e das diferentes artes, que se resume agora a um projeto para definitiva demolição, dando lugar a uma simbólica “Praça Cine-Teatro”, acabando assim com o “pesadelo” e a polémica sobre o que fazer perante o estado de ruinas a que foi indignamente deixado até à morte.

Entre os “cuidados paliativos” que foram sendo propagandeados face ao estado de agonia do imóvel, que se precipitou com o agravamento do risco de derrocada em 2016, dando origem à posse administrativa por parte da CMO. A polémica foi-se centrando na tese, salvar ou não a fachada e a parte frontal deste exemplar da arquitetura do Estado Novo. Neste caso, a parte do edifício que restou da demolição efetuada em nome da segurança pública, nomeadamente, da grande sala de cinema e da parede lateral nascente, assim como da abrupta descaraterização da fachada, que nesta operação, se viu amputada de uma parte do seu conjunto arquitetónico. Intervenção, seguida em 2018 pela aquisição do imóvel por parte da Câmara Municipal de Ovar no valor de 375.000 euros, ultrapassando a longa fase de negociações com proprietários, para legitimar promessas e projetos que nunca tiveram verdadeiro debate público, tal a versatilidade das ideias que foram sendo divulgadas a retalho até culminarem no projeto final para a sua demolição total que o atual executivo camarário quer concretizar brevemente sem efetiva oposição e consequente contestação.

“Herdado” um imóvel abandonado e encerrado a qualquer atividade cultural, por uma nova maioria na gestão do Município, numa época em que muitos outros exemplares pelo país, estavam em idêntica situação de degradação e ruinas. Ao contrário de vários Municípios, mesmo vizinhos, que valorizaram e resgataram tais elementos do património arquitetónico e cultural, reabilitando e voltando a promover cultura. Por cá, depois de sucessivos mandatos autárquicos em que prevaleceu a falta de interesse numa solução de valorização deste património, veio o tempo de promessas ditas realistas, mas para tudo continuar na mesma durante mais uns mandatos autárquicos, em que sobrevivia apenas o slogan, “Entrada Principal do Parque Urbano – Ovar”.

Foi um período de tempo, que finalmente viria despertar, depois do prolongado adormecimento, a, atenção dos munícipes de forma individual e coletiva, com debate, teses, polémica, propostas e projetos com muita imaginação virtual, sobre possíveis equipamentos culturais a serem construídos no que restou do antigo Cine-Teatro de Ovar, reavivando memórias deste equipamento cultural, e a esperança ou ilusão de um tal futuro que honrasse o seu passado, mesmo já sem a emblemática sala de cinema e toda a sua dimensão, porque qualquer tipo de requalificação estaria limitada à parte frontal, com destaque para a preservação da fachada. Exercício de cidadania saudável, estimulado por diferentes razões e motivações, com impacto nacional, mas que não demoveu os autarcas locais sociais-democratas.

Enterradas as memórias de uma comunidade nos escombros de politicas que resultam de opções claramente assumidas, que passaram por não valorizar nem preservar o Cine-Teatro de Ovar, o tardio despertar da contestação que se veio fazendo sentir nesta fase de agonia do imóvel. As espectativas para inverter tal caminho há muito traçado, não deixam dúvidas do vazio que representou a prometida grande “Estrada Principal do Parque Urbano”, que culmina agora na decisão de eliminar de uma vez por todas a fachada e o património que representa. Um apagão da memória coletiva, cujo nome a atribuir, “Praça Cine-Teatro”, só pode ser uma ofensa à cultura ali proporcionada a diferentes gerações.

Reafirmado o projeto de demolição total do antigo Cine-Teatro de Ovar, para ser concretizada a ideia de dignificar a Entrada do Parque Urbano. Projeto que em 2024 mereceu unanimidade do executivo camarário, como que a partilhar solidariedade entre os principais partidos (PSD e PS) responsáveis pelos mandatos autárquicos que pouco ou nada fizeram para salvar e preservar um tal património. Os vestígios que ainda restam das ruinas, e alimentam interessantes argumentários de artigos de opinião na defesa do Cine-Teatro, assim como a moção de parte da oposição (PS e independentes do Agir) na Assembleia Municipal de Ovar, propondo a “preservação da memória coletiva” e “criação de um novo polo cultural, museológico e turístico estruturante”, que acabou rejeitada. Com a conclusão da aguardada fase do projeto da CMO para a demolição da fachada e construção de uma praça a céu aberto, ficam enterradas memórias perturbantes com o desaparecimento de tais vestígios.

Perante tanta inércia em tempo útil…

O silêncio e a indiferença dos autarcas, marcaram várias décadas de resiliência de quem foi persistindo a promover espetáculos no Cine-Teatro de Ovar, apesar dos riscos. Mas as consequências foram inevitáveis com a acelerada decadência do imóvel. Os autarcas foram-se limitando a responsabilizar os proprietários do Cine-Teatro de Ovar e a empresa ECO que o veio gerindo até ao período em que deixou de oferecer condições de segurança ao publico e às várias atividades culturais e sociais realizadas numa sala de significativa lotação, entre plateia e galerias superiores, que acolhiam numeroso público, como nenhuma outra sala até hoje garante no Município. Silencio e indiferença que se refletiu também nos munícipes, apesar das boas memórias vividas e partilhadas por várias gerações. Amorfismo e conformismo, ou descrédito dos munícipes na possibilidade de reversão das decisões autárquicas sem debate público, que nunca esconderam os propósitos da demolição, que ficou facilitada, optando por deixar que o tempo resolvesse o imbróglio que vem representando o cenário deprimente do Cine-Teatro, e assim deixar caminho aberto para a construção de raiz do CAO no prolongamento da Biblioteca Municipal de Ovar que já funcionava desde 1997 nas modernas instalações.

Assumida a opção pela construção do CAO na gestão socialista em detrimento do Cine-Teatro de Ovar, ainda que ambos os espaços se complementassem na diversificada oferta cultural diversificada, o velhinho cinema teria certamente lugar próprio para muitos outros eventos culturais com características especificas no vasto património cultural ovarense. Assim tivesse imperado alguma sensibilidade para optar pela preservação deste património arquitetónico da cidade, cujos recursos financeiros do Município não deixaram de ter a sua determinante influência.

Para além do cinema, atividade principal do Cine-Teatro de Ovar até surgir a moda do aluguer de vídeos e a promoção do individualismo, que começou a esvaziar as salas, particularmente estas de grandes dimensões. Eventos como: Festival da Canção, Teatro e Revista (Contacto e Orfeão de Ovar), programação de Carnaval (eleição do Rei de Carnaval), Encontro das Troupes de Reis (Cantar os Reis), comícios políticos ou várias outras iniciativas, como festas de Natal de empresas e dos Serviços Sociais e Culturais dos Trabalhadores da CMO. Enquanto no salão na parte frontal do edifício, se realizavam os bailes da Passagem de Ano ou de Carnaval, e ali se apresentou a 1ª edição do Festival de Vídeo de Ovar, Ovarvídeo, que se consolidou até a cidade vir a ter nova sala (CAO) entretanto mais adequada para dignificar tal evento. Foram dinâmicas culturais e sociais que o acentuado estado de degradação do Cine-Teatro deixou de proporcionar à comunidade ovarense, pela própria intervenção dos serviços de inspeção das salas de espetáculos, ficando assim a cidade de Ovar sem um espaço, que deixou muitas memórias individuais e coletivas perdidas, num longo tempo de abandono e enterradas nas ruinas, que também desaparecerão da paisagem com o Parque Urbano da Cidade de Ovar no horizonte, ao longo das margens do Rio Cáster em que se diluirão tantas outras memórias em silêncio.

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