Das Varinas de Ovar à Madragoa: uma história que une a Ribeira e Lisboa
Amanhã (dia 12) a Avenida da Liberdade vai receber o desfile da Marcha da Madragoa e Ovar vai estar em peso a aplaudir. Depois vamos ver ao vivo aqui na Ribeira de Ovar
Todos os anos, as Marchas de São João da Ribeira transformam a zona ribeirinha de Ovar num palco de cor, música e tradição. Entre os grupos convidados, a presença da Marcha da Madragoa, de Lisboa, assume um significado especial, pois representa uma ligação histórica que atravessa mais de um século e une duas comunidades separadas por centenas de quilómetros.
A origem desta ligação remonta ao século XIX e ao início do século XX, quando muitas mulheres de Ovar e da região costeira de Aveiro partiram para Lisboa em busca de melhores condições de vida. Conhecidas como varinas, dedicavam-se à venda de peixe pelas ruas da capital, transportando à cabeça os tradicionais cestos de peixe e anunciando os seus produtos com pregões que ficaram famosos.
Muitas destas mulheres fixaram-se no bairro da Madragoa, uma zona tradicionalmente ligada ao rio Tejo, à atividade marítima e às comunidades piscatórias. A sua presença marcou profundamente a identidade do bairro, ao ponto de as varinas se tornarem um dos principais símbolos da Madragoa.
Com o passar dos anos, a figura da varina entrou no imaginário popular lisboeta e passou a ser representada nas Marchas Populares de Lisboa. A Marcha da Madragoa adotou esta herança cultural, homenageando frequentemente as mulheres que ajudaram a construir a identidade do bairro. Ainda hoje, muitos dos seus trajes e coreografias evocam a vida das antigas peixeiras, algumas delas naturais de Ovar.
É por isso que a participação da Marcha da Madragoa nas Marchas de São João da Ribeira é encarada como um regresso às origens. Mais do que um simples intercâmbio cultural, trata-se de um reencontro simbólico entre a terra natal das varinas e o bairro que as acolheu.
As Marchas de São João da Ribeira nasceram da vontade da comunidade local de preservar as tradições populares associadas às festas de São João. Ao longo dos anos, o evento cresceu e tornou-se uma referência cultural no concelho de Ovar, reunindo centenas de participantes e milhares de espectadores.
A presença da Madragoa acrescenta uma dimensão histórica única às festividades. Quando os marchantes lisboetas desfilam pelas ruas da Ribeira, trazem consigo a memória de gerações de mulheres ovarenses que deixaram a sua terra para construir uma nova vida na capital, sem nunca perderem as suas raízes.
Esta é uma história de trabalho, coragem e identidade. Uma história que explica porque razão, sempre que a Madragoa visita a Ribeira, não se trata apenas de uma marcha convidada. Trata-se de uma parte da história de Ovar que regressa a casa.
