FONTES DE OVAR – UM PATRIMÓNIO CULTURAL SOCIAL E ARQUITETÓNICO HÁ MUITO ESQUECIDO E ABANDONADO
Por José Lopes
Este património cultural, social e arquitetónico, que há muito vinha sendo votado ao abandono, que se acentuou e agravou com o fim da sua função social no abastecimento de água à população de Ovar, vem merecendo a atenção de atividades pedagógicas em meio escolar, para sensibilização dos alunos e comunidades escolares em geral. Vinha igualmente há várias décadas, ao contrário do que hoje acontece, sendo motivo de interesse, com espaço próprio nos programas eleitorais das diferentes forças partidárias em sucessivas eleições autárquicas, em que, na oposição ou na gestão dos órgãos autárquicos, elegiam as Fontes, como tema de debate e bandeira politica, ainda que não passassem de promessas adiadas ou de simbólicas intervenções de restauro efémero, cujos sinais de degradação se arrastam no tempo até ao presente estado de abandono.
Sem coerência entre as preocupações e intenções manifestadas, e as medidas práticas para a efetiva dignificação deste património. A relevância destes monumentos abandonados, foi sendo repetidamente desvalorizada, acabando por se perder no tempo qualquer opção para investir na sua preservação. Só mesmo pontualmente foram sendo mote para referencias no debate politico, assumidas por eleitos, que, resistindo à tentação da indiferença, foram persistindo mesmo solitariamente na sua defesa, negando-se a contribuir para silenciar tal desleixo e abandono, a que em pleno século XXI continuam indignamente votadas as Fontes e as memórias da sua função social cada vez mais esquecidas.
Assim ficaram e continuam votadas ao abandono durante décadas, em que nem mesmo as pontuais intervenções de manutenção para a sua preservação, ou obras de requalificação no âmbito de projetos de regeneração urbana com fundos comunitários, a exemplo de algumas das fontes mais emblemáticas de Ovar, como a Fonte dos Combatentes (ou Fonte do Hospital), Fonte Júlio Dinis (ou Fonte do Casal), Fonte dos Pelames, Fonte da Vila, Fonte da Arruela ou Fonte da Mota, foram sendo suficientes para impedir o constante avanço das consequências da ausência de uma regular manutenção, originando, a inevitável degradação e mesmo ruinas, que ciclicamente se vai apoderando destes elementos arquitetónicos que envolvem cada uma das Fontes em que as populações de Ovar procuravam o abastecimento de água pura e fresca, transportada em cântaros de barro como era tradição, relacionada com um outro património local, o da arte cerâmica, resultando das muitas olarias que nesta terra produziam utensílios e louças de barro.
Reconhecidas como elementos integrantes do património social, cultural e arquitetónico, que, na história ainda recente da vila de Ovar (cidade desde 1984), foram fundamentais no abastecimento de água à população, até à época em que o abastecimento de água potável começou a ser construído na generalidade da malha urbana (rede de abastecimento que em Abril de 1974 ainda não chegava a alguns dos arruamento e lugares). As Fontes e suas nascentes, acabaram por secar ou ficar limitadas a um insignificante “fio” de água imprópria para consumo, afetadas por focos de poluição que durante muitos anos, e de forma criminosa se foram cometendo ao longo das margens do Rio Cáster, na sua umbilical relação entre linhas de água que se entrelaçam até desaguarem na Ria, ainda sujeitas a descargas e atentados ambientais que pontualmente surpreendem quem procura o lazer do Parque Urbano da Cidade de Ovar e toda a sua biodiversidade e beleza paisagística que envolve várias das nascentes das Fontes mesmo já sem a vida que as caraterizavam.
As fontes de Ovar mesmo no estado de decadência em que se encontram, vão sendo integradas em roteiros de caminhadas e jornadas culturais e ecológicas, bem como ponto de referência na educação ambiental das comunidades escolares locais. Algumas das fontes proporcionam mesmo cenários naturais para eventos culturais, como as experiencias ensaiadas pelo Festival Internacional Marionetas de Ovar – FIMO, que levou à Fonte dos Combatentes e à Fonte Júlio Dinis espetáculos de Marionetas.
Com um percurso acessível para uma caminhada entre a localização de cada uma das Fontes nas margens das várias linhas de água que se cruzam na cidade de Ovar, a sua identificação, registo e observação, permite testemunhar a inquietante desvalorização e abandono a que foram votados estes elementos do património social, cultural e arquitetónico, bem como as memórias de um povo que ainda há meio século, a elas recorria para abastecimento de água, vindo-se a deparar nas últimas décadas com uma tal decadência, em que as memórias se vão apagando e secando, ainda que algumas das quadras que resistem ao tempo, em painéis de azulejo, reafirmem:
“DIZEM QUE AS FONTES CHORAM? CANTANDO ESPALHAM SEU BEM! SÓ CHORA A FONTE QUE NUNCA MATOU A SEDE A NINGUEM” (Fonte da Arruela). Já as fontes públicas da Rua da Fonte e mais tarde Rua Alexandre Herculano, enaltecem a sua função independentemente das classes que serviam. “POBRE OU RICO, ISSO QUE IMPORTA? / DÁ-LHE A TODOS DE BEBER. / CANTA, CANTA ETERNAMENTE. / NÃO TE CANSES DE CORRER” (Fonte da Mota). As fontes não só se cansaram de correr, como a sua frescura de outros tempos é assim lembrada a quem passa, “ÁGUA PURA E CRISTALINA, / FRESQUINHA DE CONSOLAR, / VEM DE TI PRÓS NOSSOS LÁBIOS, / MATA A SEDE A QUEM PASSAR” (Fonte da Vila).
Neste registo das principais Fontes, reconhecidamente localizadas em leitos de cheia e consequentemente fator de constante degradação, apesar das obras de requalificação de que algumas chegaram a beneficiar através de fundos comunitários, a exemplo da Fonte Júlio Dinis, que acabou por beneficiar de intervenção a quando da valorização das margens do rio Cáster e do projeto da Escola de Artes e Ofícios, construída na antiga fábrica de papel, que tornou a área envolvente desta fonte, num espaço público de maior dignidade. Ainda assim, os sinais de degradação desta fonte, que começou por ser Fonte do Casal e mais tarde em memória do escritor das “Pupilas do Senhor Reitor” se passou a designar Fonte Júlio Dinis, tendo sido reconstruída pela CM de Ovar em 1940. São evidentes as dificuldades em manter este património com o desejável brilho que aquela zona merece e em que se podem apreciar painéis azulejares com marcas de sucessivas intervenções de restauro e conservação, para preservar memórias ali gravadas e pintadas, como, “Ó RIO DAS ÁGUAS CLARAS, / QUE VAIS CORRENDO PRÓ MAR; / OS TORMENTOS QUE EU PADEÇO, AÍ NÃO OS VÁS DECLARAR” ou ainda, “ANDAVA A POBRE CABREIRA / O SEU REBANHO A GUARDAR, / DESDE QUE ROMPIA O DIA / ATÉ A NOITE FECHAR”.
Entre apontamentos históricos sobre a importância das Fontes no desenvolvimento da vila…
Foram muitos os artigos de jornais dedicados a este património e ao seu estado de abandono, mas também são elementos de investigação na história local da autoria de vários autores.
Definitivamente apagadas no tempo, estão memórias de um grande aglomerado de Fontes que deram mesmo origem ao nome, de, Rua da Fonte, atual rua Alexandre Herculano. Recorrendo à revista Dunas “temas & perspetivas” editada anualmente pelo Município de Ovar, uma edição anual sobre cultura e património da região de Ovar. Pode-se encontrar num texto de Lamy Laranjeira (Licenciado em Economia, autor de livros e artigos sobre a história e a etnografia local), “As Fontes da Rua da Fonte, em 1930” (Dunas, n.º6 de novembro 2016), um convite à “descoberta” arqueológica, para identificar ou imaginar locais nesta rua em que existiram 12 Fontes, que enumera discriminadamente: Fonte na propriedade do Sr. Figueiredo; Fonte na propriedade dos Correios; Fonte na propriedade da Família Camossa; 3 Fontes da Quinta da Sra. dos Anjos; Fonte Capitão Belmiro/D. Sofia; Fonte da Samaritana/Antoninha do Maciel; Fonte da Sra. Aninhas do Lamarão; 2 Fontes da Família Regueira e Fonte da Mota.
A relação da população com o património representado pelas Fontes, que marcaram várias gerações, tanto social, como cultural e arquitetonicamente, é aprofundada e enriquecida com elementos históricos, como os que Lamy Laranjeira refere sobre a frescura destas Fontes, ao ponto de uma firma de refrigerantes ali existente (Soares Paes), a exemplo dos residentes, recorrer à fonte situada na quinta da Sra. dos Anjos, porque, “não prescindia da linfa que botava da bica para o fabrico das gasosas, pirolitos e laranjadas, além de outros refrescos”. Deste conjunto de fontes maioritariamente particulares ao longo da então Rua da Fonte, surgiria a primeira a ser construída na Vila de Ovar com carater público para servir a população no abastecimento de água, sendo designada por Fonte da Vila. Seguiu-se mais acima na mesma rua, a Fonte da Mota.
Fontes e Chafariz foram naturalmente determinantes no abastecimento de água à Vila de Ovar e ao seu desenvolvimento, havendo “necessidade de dotar a vila de água suficiente para a sua sustentabilidade e, desta forma, responder às necessidades efetivas de uma vila em crescimento que, pelos censos de 1864, registava 10.359 habitantes”, lembra Joaquim Fidalgo (Licenciado em História, com vários artigos publicados no jornal João Semana e na Revista Dunas), num trabalho de investigação “Ovar na segunda metade do século XIX O abastecimento de água à Vila de Ovar” (Dunas, n.º13, novembro 2013). Este autor adianta no entanto, numa abordagem mais geral sobre a origem da água das fontes então existentes, que, “a água que abastecia a vila era proveniente de sete fontes que existiam no tecido urbano, algumas fontes não possuíam nascentes, e a água era resultante principalmente das infiltrações das chuvas”.
Perante tal conclusão na época, em que se reconhecia que as fontes forneciam água em péssimas condições, referindo-se às que eram provenientes das chuvas infiltradas nos terrenos, “a descoberta de um manancial de água na mãe-d`água em 1874, onze anos após o concelho distrital apelar à câmara para responder às necessidades de uma população em crescimento, quer natural, quer económico, vai responder (…)”, segundo Joaquim Fidalgo, às necessidades de uma população sequiosa de “melhor qualidade de vida”, através de “um investimento hercúleo”, tal foi o empreendimento para a canalização das águas, cujo projeto, “compreendia três módulos”.
Como adianta o autor do texto a que nos referimos, “no primeiro, todo o músculo seria canalizado para a construção da conduta principal, que começa na mãe d’água e termina na rua do Cruzeiro da Graça, módulo este que só ficará concluído com a extensão aos chafarizes”. Seguiu-se um segundo módulo que passou pela implantação de quatro chafarizes no tecido urbano, neste caso, na Ponte Nova, Outeiro e Campos.
Por fim, “o terceiro módulo o mais ambicioso, teria como objetivo o estudo do espaço urbano fronteiro à câmara municipal e à casa do tribunal, para a implantação do chafariz principal que, pela sua impotência, embelezaria o espaço urbano”, referindo-se o autor ao chafariz Neptuno, o ex-libris da cidade.
Ambos os meios de abastecimento de água à população, fontes com água fresca e cristalina e chafarizes com água canalizada a partir da mina de Mãe d´água, coabitaram na sua indispensável missão para a vida de uma comunidade, até à sua consequente degradação e nova falta de resposta às exigências de uma vila em crescimento, ainda que, como assinala Alfredo Costa (Licenciado em Engenharia Civil, Diretor dos S.M.A.S. de 1996 a 2005) no seu texto, “O abastecimento de água e o saneamento no concelho de Ovar” (Dunas, n.º8, novembro de 2008). “75 anos foi o tempo necessário para que se realizasse o abastecimento público de água a todo o Concelho de Ovar. Com efeito, data de 18 de junho de 1933 a deliberação da Câmara Municipal de encarregar o Eng.º Hidráulico Carlos Vieira de realizar os estudos da captação e melhor aproveitamento das águas da mãe-de-água, reforçando-se o abastecimento público de água a partir das fontes e chafarizes e para combate a incêndios”.
Destes elementos do património local que se perdem no tempo, restam paisagens e imagens deprimentes do abandono, a que grande parte, está, há muito votado.
José Lopes