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Alterações Climáticas: o custo económico da inação e o desafio de Esmoriz
As alterações climáticas deixaram de ser uma abstração científica para se tornarem um fator económico determinante. Em 2025, as perdas globais associadas a catástrofes naturais atingiram cerca de 107 mil milhões de euros, enquanto os incêndios florestais consumiram aproximadamente 390 milhões de hectares à escala mundial. Em paralelo, os furacões e tempestades estão menos frequentes, mas claramente mais intensos, amplificando danos humanos, patrimoniais e produtivos. Do meu ponto de vista enquanto economista, este cenário representa uma transferência silenciosa de riqueza: recursos que poderiam ser investidos em crescimento, inovação ou coesão social são desviados para reparação de danos e resposta a emergências.
Quem não se recorda do enorme areal do Furadouro e o impacto que a subida do nível do mar, com este a descer a avenida. A Praia de S. Pedro de Maceda perdeu parte da frente de estacionamento com a erosão e subida do mar ficando mais perto do aterro de resíduos e compósitos médicos. Assim como Cortegaça e Esmoriz não estão imunes a esta realidade. As zonas ribeirinhas e costeiras enfrentam a subida gradual do nível do mar, agravada por marés vivas e tempestades atlânticas. As zonas baixas da cidade de Esmoriz, incluindo áreas próximas de linhas de água, túneis e eixos rodoviários rebaixados, apresentam risco crescente de cheias rápidas em episódios de precipitação intensa. Ventos fortes e chuvas concentradas, cada vez mais comuns, pressionam infraestruturas concebidas para um clima que já não existe.
As tempestades Kristin, Ingrid, Joseph, Leonardo, Marta, Nils, Olivier, Pedro, Regina, Samuel e Tomás ilustram esta nova normalidade: episódios sucessivos, de elevada energia, que provocaram erosão costeira, inundações urbanas, interrupções logísticas e custos elevados para famílias, comércio e indústria. Cada evento, isoladamente, pode parecer excecional; em conjunto, configuram um risco sistémico.
No plano industrial, os picos de calor colocam desafios adicionais: maior probabilidade de falhas elétricas, degradação de equipamentos, riscos químicos e incêndios industriais. Um plano de prevenção para zonas industriais deve incluir protocolos de paragem segura em ondas de calor, reforço de sistemas de ventilação e refrigeração, energia de retaguarda, redes inteligentes de energia (smart grids), redes de telecomunicações mais eficazes (face ao SIRESP), auditorias de risco térmico, formação de trabalhadores e coordenação com proteção civil.
Aqui reside também uma oportunidade. Esmoriz pode liderar com um plano integrado de evacuação, simulacros regulares, cartografia pública de risco e um plano de segurança da zona industrial, extensível às áreas limítrofes. A prevenção é economicamente racional: cada euro investido reduz múltiplos euros em perdas futuras.
O ponto positivo é claro: o “braço musculado” dos Bombeiros de Ovar e Esmoriz. A sua capacidade operacional, conhecimento do território e resposta rápida são um ativo estratégico. Cabe agora alinhar investimento, planeamento e governança local para que a resiliência climática deixe de ser reação e passe a ser estratégia. Como economista, a conclusão é inequívoca: prevenir custa menos do que reparar — e salva valor, vidas e futuro.
Autor: Gonçalo Marques
Licenciado e Mestre em Economia pela Universidade da Beira Interior, MBA Executivo na Escola de Negócios Europeia de Barcelona.
