O 25 de Abril e os Retornados
Foi o maior fluxo migratório na Europa desde a segunda guerra, 600 mil cidadãos regressaram a Portugal entre 1974 e 1976. Os retornados.
Muitos nunca tinham vindo ao continente e nasceram nas ditas colónias portuguesas, outros tinham como garantida a vida nesses territórios, com trabalho e investimentos.
Denominados por tantos como colonos, na realidade viviam nas suas casas.
Em Moçambique havia mesmo movimentos independentistas que incluíam todos os residentes de então.
O 25 de Abril foi para estes portugueses traumatizante. Cada colónia transformava-se em país independente, mas Angola, Moçambique e Timor Leste mergulhavam em guerras civis e insegurança política.
Alguns viviam como emigrantes, trabalhando em África, mas transferindo dinheiro para o continente e aqui construíram habitações e até empresas, mas a grande maioria veio sem nada, ou conseguiram transferir apenas alguns moveis. Eram mais 5% da população.
Chegaram a um país “novo”, efervescente e conturbado na política. Arejado na liberdade e na tenra democracia, mas atrasado na Europa e estruturalmente muito frágil.
Foram recebidos no aeroporto e nos portos marítimos com apoios da Cruz Vermelha e outras ONG’s, que prestavam assistência média, alimentação e vestuário.
O Governo criou apoios através do IARN, instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, e muitas famílias dependeram dele até estabilizarem a sua situação, num território, ele próprio instável.
Houve quem encontrasse acolhimento nas suas famílias locais, povoando o interior, mas também os que ficaram instalados em quarteis, na rede do INATEL, em parques de campismo ou em pensões e hotéis.
O termo Retornado foi sempre pejorativo. E antes mesmo de se falar em bullying foram vítimas de grande descriminação. “Ó preto vai para a tua terra” era um dos mimos de então.
A verdade é que os Retornados vieram alterar o país, sobretudo em termos de progresso. Primeiro a sua visão. África permitiu sempre ter uma amplitude de pontos de vista, de relação comunitária e de entreajuda muito fortes. Já na altura se viajava muito, incluindo para países mais desenvolvidos como a Rodésia ou a África do Sul.
Ainda sem Erasmus, os alunos portugueses já frequentavam universidades no exterior.
O comércio, sobretudo em Moçambique, era dominado pela comunidade indiana, “os monhés” e era das mais desenvolvidas de sempre.
Os retornados chegam em grandes dificuldades, mas em pouco tempo integram os serviços do Estado, pelas suas qualificações, criam empresas de comércio e mesmo unidades industriais de dimensão superior e com relações mais fortes com a exportação.
Os Retornados foram transformadores da sociedade portuguesa e motores de desenvolvimento.
Muitos regressaram aos novos países como empresários e aí iniciaram atividades interrompidas e dinamizadoras. Mas a grande maioria por cá ficou.
Duas gerações depois, destes protagonistas da revolução do 25 de Abril, pouco ou nada se fala. Do trauma à normalidade foram construtores na nova sociedade portuguesa.
Os retornados portugueses são considerados quer por políticos, quer pela comunicação social, como um caso de integração exemplar e de completa assimilação, um sucesso que muitos consideram mesmo miraculoso.
Segundo os analistas, este sucesso ficaria a dever-se a um conjunto de fatores relacionados.
Em primeiro lugar, a generosidade da população portuguesa no acolhimento, que teria recebido os desalojados com o mais abnegado sentido de solidariedade nacional. Com efeito, embora os portugueses tenham recebido os retornados de forma hostil, a verdade é que os laços familiares ainda não quebrados na metrópole foram fulcrais no primeiro socorro e acolhimento aos retornados, que muitas vezes ficaram alojados em casa de parentes.
O segundo fator teria sido a capacidade de iniciativa e luta do conjunto dos portugueses que regressaram que, ao invés de se terem prostrado em lamentações ou revoltado com a situação, tomaram as rédeas do seu destino e empreenderam em novos negócios para dar a volta à sua vida. Claro está que para que estes self-made men pudessem prosperar, foram fundamentais os muitos subsídios e programas de apoio que o Estado português colocou à sua disposição. E importa também sublinhar que esta representação dominante do retornado como empreendedor contém no seu seio muitas disparidades: nem todos têm histórias de sucesso por contar.
Por fim, um último fator, tem a ver com a própria atuação do Estado português no desencadeamento do apoio ao acolhimento e integração desta população, através de subsídios de alojamento e alimentação, de mecanismos conducentes à sua integração no mercado de trabalho (como o Quadro Geral de Adidos) ou da criação de programas de atribuição de crédito com condições particulares (como é o caso dos programas geridos pela Comissão Interministerial de Financiamento a Retornados – cifre).
Note-se que não existia em Portugal, à data da chegada dos retornados, um Estado Social como o entendemos hoje, pelo que se deve assinalar o tremendo esforço do Governo revolucionário na gigantesca operação de apoio aos retornados. Terão sido estas ações – que aliás contribuíram para a organização dos mecanismos políticos centrais do que podemos designar como Estado-Providência – que mais terão contribuído para invisibilização dos retornados a partir de inícios dos anos oitenta, dado o efeito que tiveram no travão do desemprego e da marginalização social desta população.
O 25 de Abril não é só uma revolução, uma libertação, não só cravos e metralhadoras floridas, não é só resistência e resiliência, não é só política e bandeira.
O 25 de abril é também um marco na vida das pessoas, da comunidade, e tão diversa como é diversa a vida de cada um.