Nasceu em Sá da Bandeira, Angola, local onde nasceram também os seus pais.
Em 1974, como mais 700 mil, veio para o continente, onde nunca tinha estado antes. Veio rotulado de retornado, mas sentiu-se sempre um expatriado. Veio sem nada e com nada á sua espera.
Em áfrica era comerciante e foi esse o curriculum que trouxe consigo e o salvou.
Chegou a Leiria onde esteve algum tempo, mas foi a norte que foi criando alicerces, desde a Povoa do Varzim até Ovar, passando por Granja e Espinho, entre outros.
Recomeçar do nada é sempre um desfio, mas em terras desconhecidas um desafio quase inatingível.
Comércios sem apoios, sem banca, sem subsídios. Apenas comprar, vender e servir. Assim esteve alguns anos, sendo a sua marca mais importante uma mercearia onde estabeleceu laços.
Renato Amarílio, hoje com 78 anos, é agora o proprietário do Restaurante de Esmoriz a Flor da Montanha. Um negócio que só mantém por ser a sua casa e aí albergar a sua família. Mas chama também família a quem há mais de 25 anos o frequente e regressa. Comida caseira servida num espaço verdadeiramente gourmet e com serviço de 5 estrelas. Atribui aos clientes e à forma como são recebidos e servidos o segredo do negócio. Mas não esconde que foi Angola que o treinou para uma visão mais ampla do mundo. Para uma relação mais próxima e solidária. Para a verdade e o respeito pelos outros parceiros.
Em julho de cada ano ruma às Caldas da Rainha para com mais 2.500 retornados fazer justiça à memória e à amizade.
O estigma do retornado que viveu numa terra que nunca tinha sido a sua, num caldeirão de emoções global provocado pelas recentes mudanças, não foi fácil de vencer. Acreditamos que o sorriso e a alegria com que nos recebe é parte da solução.
A esposa é a chefe da cozinha, a filha comanda a sala e crê que os netos também se vão contagiar pelo negócio. E se não fosse a família que sente em cada momento do seu trabalho, já corria mundo como viajante e não se prendia ao negócio.
Foi esta nata de comerciantes de outra latitude que, pós 25 de Abril, nos veio oferecer uma outra visão da vida empresarial, talvez mais humanizada, mas sobretudo mais resiliente.
Os de hoje, os de cá, usando uma linguagem mais agrícola, deviam ser podados e enxertados por Renato Amarílio.
